Quando se fala em testosterona, muitas pessoas ainda pensam em um hormônio exclusivamente masculino. No entanto, ela também está presente no organismo feminino e participa de diferentes processos fisiológicos, especialmente relacionados à função sexual e aos tecidos muscular e ósseo.
A produção de testosterona ocorre principalmente nos ovários e nas glândulas adrenais. Seus níveis sofrem mudanças ao longo da vida adulta, mas essa redução acontece de maneira gradual e não necessariamente representa uma doença ou uma deficiência que precise ser tratada.
Por isso, encontrar um resultado considerado baixo em um exame não significa, por si só, que a mulher precise fazer reposição hormonal.
Cansaço, baixa libido e perda muscular significam testosterona baixa?
Cansaço constante, diminuição do desejo sexual, alterações de humor, dificuldade para ganhar ou preservar massa muscular e menor disposição podem surgir em diferentes fases da vida. Embora esses sintomas sejam frequentemente associados à testosterona nas redes sociais, eles são inespecíficos e podem ter diversas causas.
Entre as possibilidades que precisam ser consideradas estão:
- Sono insuficiente ou de baixa qualidade;
- Estresse prolongado e sobrecarga emocional;
- Ansiedade ou depressão;
- Alimentação inadequada ou deficiências nutricionais;
- Sedentarismo e perda de condicionamento físico;
- Alterações na tireoide;
- Anemia;
- Uso de determinados medicamentos;
- Mudanças relacionadas ao climatério e à menopausa;
- Dificuldades emocionais ou relacionais;
- Síndrome geniturinária da menopausa, com ressecamento e desconforto durante as relações.
Isso significa que os sintomas devem ser interpretados dentro de todo o contexto de saúde da mulher. Atribuir indisposição, ganho de peso ou baixa libido automaticamente à testosterona pode atrasar a identificação da verdadeira causa.
O que um exame de testosterona pode mostrar?
Diferentemente do que acontece nos homens, não existe um valor mínimo de testosterona estabelecido que permita diagnosticar uma síndrome de deficiência hormonal feminina.
Os níveis variam conforme a idade, os métodos utilizados pelo laboratório, o uso de medicamentos e outras características individuais. Além disso, uma mulher pode apresentar um resultado laboratorial baixo sem ter qualquer sintoma, enquanto outra pode apresentar alterações na libido mesmo com resultados dentro dos valores de referência.
Por esse motivo, a dosagem de testosterona não deve ser utilizada isoladamente para explicar cansaço, alterações de humor, dificuldade para emagrecer ou diminuição do desejo sexual.
O exame pode ser solicitado em situações clínicas específicas, principalmente quando existe suspeita de excesso de andrógenos — manifestado, por exemplo, por crescimento excessivo de pelos, acne persistente, queda de cabelo ou sinais de virilização. Também pode ser utilizado para acompanhamento quando existe uma indicação criteriosa de tratamento.
A baixa libido depende apenas dos hormônios?
Não. O desejo sexual feminino é influenciado por uma combinação de fatores biológicos, emocionais, sociais e relacionais.
Sono, estresse, autoestima, qualidade do relacionamento, dor durante as relações, medicamentos, depressão, ansiedade e as mudanças hormonais da menopausa podem interferir na libido. Por isso, uma avaliação adequada precisa ir além de um único exame laboratorial.
Quando a diminuição persistente do desejo provoca sofrimento pessoal, pode ser investigada a possibilidade de transtorno do desejo sexual hipoativo. Esse diagnóstico é clínico e exige uma análise cuidadosa para descartar outras causas.
Quando a testosterona pode ser indicada?
As evidências científicas disponíveis sustentam o uso de testosterona em uma situação específica: mulheres na pós-menopausa com diagnóstico de transtorno do desejo sexual hipoativo, após a investigação e o tratamento de outros fatores que possam estar interferindo na libido.
A testosterona não é recomendada de forma geral para:
- Aumentar energia ou disposição;
- Promover emagrecimento;
- Acelerar o metabolismo;
- Ganhar massa muscular;
- Melhorar o humor;
- Prevenir o envelhecimento;
- Aumentar o desempenho físico;
- Realizar uma suposta “regulação hormonal”.
Mesmo quando existe uma indicação reconhecida, o tratamento precisa ser individualizado, utilizar doses adequadas ao organismo feminino e contar com acompanhamento clínico e laboratorial.
Quais são os riscos do uso inadequado?
A utilização indiscriminada de testosterona pode provocar acne, aumento de pelos no rosto e no corpo, oleosidade da pele, queda de cabelo, alterações no colesterol, engrossamento da voz e mudanças no ciclo menstrual.
Dependendo da dose e do tempo de exposição, algumas alterações, como o engrossamento da voz e determinados sinais de virilização, podem não regredir completamente após a interrupção.
Também não estão bem estabelecidas todas as consequências cardiovasculares e mamárias do uso prolongado. Por isso, implantes hormonais manipulados, popularmente chamados de “chips da beleza”, não devem ser utilizados para fins estéticos, emagrecimento, ganho de massa muscular ou melhora inespecífica da disposição.
O cuidado começa pela investigação correta
Quando uma mulher percebe cansaço persistente, diminuição da libido, perda de força, alterações de humor ou menor disposição, o primeiro passo não deve ser buscar uma reposição hormonal por conta própria.
A avaliação médica permite analisar o momento de vida, o histórico de saúde, o sono, a alimentação, os medicamentos utilizados, os sintomas da menopausa e outros possíveis fatores. Exames podem ser solicitados conforme essa avaliação, mas seus resultados sempre precisam ser interpretados em conjunto com o quadro clínico.
Mais importante do que corrigir um número em um exame é compreender o que está por trás dos sintomas.
Cuidar da saúde hormonal é investigar com responsabilidade, evitar soluções simplistas e construir uma estratégia segura e individualizada para cada mulher.