Essa é uma dúvida frequente no consultório. Ao observar gerações anteriores, muitas pessoas têm a impressão de que as mulheres engravidavam mais facilmente, enquanto atualmente um número crescente de casais precisa de mais tempo ou de acompanhamento médico para conseguir uma gestação.
Essa comparação, porém, precisa ser feita com cuidado. Isso não significa que o corpo feminino tenha perdido sua capacidade reprodutiva de uma geração para outra.
Em grande parte, o que mudou foi o momento da vida em que a maternidade acontece, além do contexto social, profissional, econômico e de saúde em torno da decisão de ter filhos.
A fertilidade feminina não mudou — o momento das tentativas, sim
Biologicamente, o envelhecimento reprodutivo segue o mesmo padrão observado nas gerações passadas.
A mulher nasce com uma quantidade limitada de óvulos. Ao longo da vida, essa reserva diminui continuamente, tanto pelo amadurecimento dos folículos durante os ciclos menstruais quanto por um processo natural de perda folicular.
Com o passar dos anos, não ocorre apenas uma redução na quantidade de óvulos disponíveis. A qualidade deles também diminui, o que pode reduzir as chances de fecundação, de implantação do embrião e de manutenção da gestação.
A fertilidade começa a declinar gradualmente a partir do início dos 30 anos, com uma queda mais significativa depois dos 35. A idade feminina continua sendo um dos fatores mais importantes para estimar a possibilidade de uma gravidez natural.
Nossas avós, em geral, começavam a formar família mais cedo, durante uma fase em que a reserva ovariana e a qualidade dos óvulos eram biologicamente mais favoráveis.
A maternidade está acontecendo mais tarde
Nas últimas décadas, aumentou a idade em que muitas mulheres têm o primeiro filho.
Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE, mostram que, em seus países membros, a idade média no primeiro parto passou de 28,5 para 30,8 anos ao longo de aproximadamente duas décadas.
No Brasil, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística também demonstram um aumento da proporção de nascimentos entre mulheres com 30 anos ou mais.
Esse adiamento é multifatorial e pode envolver:
- Maior tempo dedicado aos estudos e à formação acadêmica;
- Construção e consolidação da carreira profissional;
- Busca por estabilidade financeira;
- Aumento do custo de vida e da moradia;
- Dificuldade de encontrar um parceiro com quem exista o desejo mútuo de formar uma família;
- Falta de uma rede de apoio estruturada;
- Desejo de alcançar maior maturidade emocional antes da maternidade.
Essas transformações representam conquistas fundamentais para a autonomia feminina. O desafio surge quando o planejamento pessoal se depara com um limite biológico que nem sempre recebeu a devida atenção anteriormente.
Engravidar mais cedo não significava ausência de infertilidade
A dificuldade para engravidar não é um problema exclusivo da vida moderna.
A Organização Mundial da Saúde estima que aproximadamente uma em cada seis pessoas em idade reprodutiva enfrentará infertilidade em algum momento da vida.
Ela pode decorrer de fatores femininos, masculinos, da combinação de ambos ou permanecer sem uma causa definida, mesmo depois de uma investigação detalhada.
A percepção de que “antigamente era mais fácil” existe, em parte, porque muitas dificuldades reprodutivas no passado não eram investigadas, diagnosticadas ou discutidas abertamente.
O acesso a exames, especialistas e tratamentos de reprodução assistida também era muito mais limitado.
Assim, preservamos na memória as histórias das mulheres que tiveram muitos filhos, mas raramente ouvimos sobre as experiências daquelas que tentaram e não conseguiram engravidar.
Condições que afetam a fertilidade são mais diagnosticadas hoje
Atualmente, existem recursos mais precisos para identificar condições que podem interferir na ovulação, nas trompas, no útero ou no equilíbrio hormonal.
Síndrome dos Ovários Policísticos
A Síndrome dos Ovários Policísticos, conhecida como SOP, afeta aproximadamente 10% a 13% das mulheres em idade reprodutiva e é uma das principais causas de alterações da ovulação.
A Organização Mundial da Saúde estima que até 70% das mulheres com a condição possam permanecer sem diagnóstico.
Endometriose
A endometriose atinge aproximadamente 10% das mulheres em idade reprodutiva. Ela pode estar associada à dor pélvica, dor durante as relações sexuais e dificuldade para engravidar.
Outras condições
Outras alterações que podem interferir na fertilidade incluem:
- Alterações no funcionamento da tireoide;
- Miomas uterinos;
- Obstruções nas trompas;
- Insuficiência ovariana prematura;
- Infecções sexualmente transmissíveis;
- Alterações na produção, movimentação ou formato dos espermatozoides.
O aumento no número de diagnósticos não significa que essas condições não existiam antigamente. Em muitos casos, elas não eram reconhecidas ou eram atribuídas a outras causas.
O papel do estilo de vida e do ambiente
A fertilidade resulta de uma interação complexa entre fatores genéticos, hormonais, anatômicos, hábitos de vida e exposições ambientais.
Fatores como tabagismo, variações extremas de peso, consumo excessivo de álcool, doenças crônicas descompensadas e o uso de determinados medicamentos podem afetar a saúde reprodutiva.
Também existem pesquisas sobre os desreguladores endócrinos: substâncias químicas presentes em alguns plásticos, pesticidas, cosméticos, embalagens e outros produtos que podem interferir no funcionamento hormonal.
Embora existam evidências de uma possível associação entre determinadas exposições e problemas reprodutivos, isso não significa que uma única substância seja, isoladamente, a responsável pela infertilidade de uma pessoa.
Estresse crônico, privação de sono, sedentarismo e alimentação inadequada também podem afetar a saúde geral e metabólica.
Contudo, não é adequado atribuir a dificuldade para engravidar apenas à ansiedade ou ao estilo de vida. A investigação precisa ser rigorosa e considerar o casal como um todo.
A fertilidade masculina precisa ser investigada na mesma proporção
Historicamente, a responsabilidade pela dificuldade para engravidar recaía quase exclusivamente sobre a mulher. Atualmente, sabemos que o fator masculino também está presente em uma parcela importante dos casos.
Alterações na quantidade, na motilidade ou na morfologia dos espermatozoides, além de varicocele, infecções, obstruções e distúrbios hormonais, podem afetar diretamente as chances de gravidez.
Por isso, a avaliação do parceiro deve ser realizada paralelamente à investigação da mulher.
O sucesso de uma gestação depende de diferentes etapas funcionando adequadamente:
- Ovulação adequada;
- Qualidade dos gametas, óvulo e espermatozoide;
- Integridade e funcionamento das trompas;
- Fecundação;
- Desenvolvimento do embrião;
- Implantação adequada no endométrio.
Quando procurar orientação médica?
Não é necessário esperar surgir uma dificuldade para conversar sobre fertilidade.
A consulta pré-concepcional pode avaliar o histórico de saúde, o ciclo menstrual, os medicamentos utilizados, o estado vacinal, os hábitos de vida e possíveis fatores de risco.
Para casais sem fatores de risco conhecidos, a investigação de infertilidade costuma ser recomendada após:
- 12 meses de tentativas sem sucesso, quando a mulher tem menos de 35 anos;
- 6 meses de tentativas, quando a mulher tem 35 anos ou mais;
- Avaliação mais imediata, especialmente depois dos 40 anos ou quando já existem condições relacionadas à infertilidade.
Também pode ser necessário investigar mais cedo quando existem ciclos menstruais muito irregulares ou ausentes, suspeita de endometriose, cirurgias pélvicas anteriores, histórico de quimioterapia ou alterações reprodutivas conhecidas no parceiro.
Planejar não é antecipar um problema
Discutir o planejamento reprodutivo não significa pressionar uma mulher a engravidar antes do momento desejado.
O objetivo é oferecer informações claras e científicas para que as escolhas pessoais sejam realizadas com consciência.
Conhecer a curva de fertilidade, identificar fatores de risco e compreender as opções disponíveis permite construir uma estratégia compatível com os objetivos e com o momento de vida de cada pessoa.
Nossas avós não tinham uma biologia superior. Elas frequentemente começavam a tentar engravidar mais jovens, em uma fase biologicamente mais favorável e inseridas em um contexto social e econômico muito diferente.
Gerar uma vida não é uma questão de culpa ou de capacidade individual. A fertilidade resulta do equilíbrio entre idade, saúde metabólica, fatores femininos e masculinos e o momento em que o casal decide iniciar as tentativas.
Referências utilizadas
- ACOG — Declínio da fertilidade relacionado aos ovários
- ASRM — Avaliação da infertilidade feminina
- Organização Mundial da Saúde — Infertilidade
- Organização Mundial da Saúde — Síndrome dos Ovários Policísticos
- Organização Mundial da Saúde — Endometriose
- OCDE — Tendências de fertilidade e idade da maternidade
- IBGE — Estatísticas do Registro Civil
- NIEHS — Ambiente e saúde reprodutiva